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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Serra Pelada em busca da eternidade



Como foi o garimpo em Serra Pelada?
O maior garimpo a céu aberto do mundo chegou a reunir mais de 100 mil pessoas atrás de pepitas de ouro no interior do Pará



Uma região  com uma historia unica num país de politicos covardes e hesitantes. Uma historia fantastica ainda a ser contada e eternizada, tal o feito dos egípcios. Uma lenda a ser resgatada, há dívidas a serem pagas aos garimpeiros que ainda hoje esperam.
 



Foi um fenômeno da mineração que ocorreu no Pará entre 1980 e 1992. Tudo começou quando uma pepita de ouro foi encontrada na fazenda de Três Barras no final de 1979 (há controvérsias sobre a data), atraindo, nos meses seguintes, mais de 30 mil pessoas. A fazenda foi invadida pelos garimpeiros e passou a ser controlada pela ditadura militar – o líder era Sebastião Rodrigues de Moura, o major Curió, que tinha feito “fama” perseguindo guerrilheiros no Araguaia (em 1982, o major se tornou deputado federal e, em 1988, deu nome a Curionópolis, onde oficialmente está Serra Pelada). Munidos de pás e picaretas, os garimpeiros desterraram o morro de 150 m de altura, deixando no lugar uma cratera de 24 mil m2 que se transformou num lago de 200 m de profundidade com a ação das chuvas. Serra Pelada foi o maior garimpo a céu aberto do mundo, de onde foram extraídas toneladas de ouro.


1. Após a descoberta inicial, mais de 30 mil pessoas foram atrás do ouro. A Vale do Rio Doce, que tinha direitos sobre a lavra, recebeu uma indenização do governo pela perda da área, que foi invadida. Todo mundo devia vender o ouro para os cofres federais, mas, na prática, o contrabando existia. A Vale interditou a cava diversas vezes para mecanizar a exploração, mas os garimpeiros voltavam para lá

2. No garimpo, não era cada um por si. O terreno era dividido em “barrancos” (pedaços de terra de 2 por 3 m), que foram conquistados à força no começo e, depois, sorteados, contando inclusive com escritura. Os donos dos barrancos eram os “capitalistas”, que tinham subordinados e ficavam com quase todo o lucro. No auge, Serra Pelada tinha 300 barrancos

3. Logo abaixo do capitalista estava o meia-praça, basicamente o cara que dizia quem iria escavar onde. Por dar ordens, o meia-praça era a “classe média” do garimpo – e, diferentemente dos outros, que eram assalariados, ganhava por comissão. Ele recebia uma pequena porcentagem sobre o ouro encontrado (de 2 a 5%)

4. Os outros empregados eram o cavador, o apontador, o apurador e o formiga. O trabalho começava com este último: ele cavava o solo até encontrar rocha. Depois, juntava até 35 kg dessa terra num saco, punha nas costas e o carregava para fora da cava, subindo escadas improvisadas chamadas de “adeus-mamãe”. Seu pagamento era proporcional ao peso levado

5. O cavador era o empregado mais importante: orientado pelo meia-praça, ele marretava a rocha com picaretas atrás de pepitas. Dependia-se muito da sorte, pois não dava para saber se o barranco estava premiado ou não antes de explorá-lo. Era frequente encontrar pepitas de ouro do tamanho de uma bola de golfe


6. Em seguida, ocorria a lavagem. Nessa parte, o apurador escorria a terra por uma calha coberta de mercúrio líquido. A substância se unia ao ouro, formando uma liga. A bateia (uma espécie de bandeja côncava de metal) era usada para separar a liga da terra. Depois, esse mix era esquentado para evaporar o mercúrio e sobrar só o ouro

7. Próximo ao barranco existia um guichê da Caixa Econômica Federal. Pela lei, era o único lugar onde os garimpeiros poderiam vender o minério extraído. Havia uma balança para pesar o ouro e o pagamento era feito em dinheiro vivo. No entanto, a Caixa estabelecia os preços, que eram até 60% abaixo do valor real das pedras

8. Na mina eram proibidos álcool, armas e mulheres – havia policiais federais (os “fedecas”) monitorando tudo. Diante das proibições na jazida, nasceu a Vila Trinta, um vilarejo a 30 km de Serra Pelada, na rodovia PA-175, com bares e muitos bordéis. Além da farra, a aldeia era lugar para aliviar as armas de fogo. Entre brigas e acertos de contas, os assassinatos eram rotineiros

9. A fase áurea foi entre 1982 e 1986, quando 100 mil pessoas se acotovelavam em Curionópolis (hoje com 18 mil habitantes). O garimpo em Serra Pelada durou até 1992, quando o governo fechou a mina. Até o encerramento, 56 toneladas do valioso metal foram arrancadas (incluindo aí a extração clandestina). Em 2002, o garimpo voltou, mas de modo mecanizado


PERGUNTA DA LEITORA – Thaís Matias Pamplona de Oliveira, Ribeirão Preto, SP
CONSULTORIA Estêvão Barbosa, geógrafo e pesquisador do núcleo Mineração e Desenvolvimento Sustentável da UFPA, Luiz Jardim Wanderley, geógrafo e professor da UFRJ, Salvador Tavares de Moura, historiador e professor da UFMA, Valdeci Monteiro dos Santos, economista e professor da Universidade Católica de Pernambuco
FONTES Documentário Serra Pelada: A Lenda da Montanha de Ouro, de Victor Lopes; filme Serra Pelada, de Heitor Dhalia; livro Serra Pelada: Uma

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Quem se lembra da Rodesia?



Presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, apresenta renúncia

(Arquivo) O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe - AFP/Arquivos
AFP


O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, de 93 anos, apresentou nesta terça-feira (21) a sua renúncia, após 37 anos no poder, anunciou o presidente do Parlamento Nacional durante uma sessão extraordinária.

“Eu, Robert Gabriel Mugabe, (…) apresento formalmente a minha renúncia à presidência da República do Zimbábue com efeito imediato”, declarou o presidente da Assembleia Nacional, Jacob Mudenda, ao ler, sob aplausos, a carta de demissão do chefe de Estado.

A notícia foi anunciada em uma sessão extraordinária do Parlamento, convocado para debater uma moção de destituição de Mugabe, que controlou todos os aspectos da vida pública no Zimbábue desde sua independência, em 1980.

O anúncio foi comemorado nas ruas da capital, Harare, com buzinaços e gritos de alegria.

“Estou tão contente que Mugabe tenha ido embora, 37 anos sob sua ditadura não é brincadeira”, disse Tinashe Chakanetsa, de 18 anos. “Tenho esperança de um novo Zimbábue, dirigido pelo povo e não por uma pessoa”, afirmou.

A renúncia pôs fiz a uma semana de incertezas sem precedentes, que começou quando os militares assumiram o controle, após Mugabe destituir o vice-presidente Emmerson Mnangagwa e seus esforços para colocar sua esposa, Grace, no comando do país.

A primeira-ministra britânica, Theresa May, reagiu ao anúncio da renúncia, afirmando que a saída de Mugabe “oferece ao Zimbábue a oportunidade de forjar um novo caminho livre da opressão”.

“Como o amigo mais antigo do Zimbábue, faremos o possível para apoiar” a transição política no país, acrescentou a chefe de Estado da Grã-Bretanha, ex-potência colonial do país africano.

– Pedidos de renúncia –
Antes do início da sessão parlamentar, o ex-vice-presidente do Zimbábue, Emmerson Mnangagwa, uniu-se nesta terça aos pedidos de renúncia imediata do presidente, ao mesmo tempo em que os veteranos da guerra de independência convocaram protestos.

“Convido o presidente Mugabe a levar em conta os apelos lançados pelo povo para sua demissão de forma que o país possa avançar”, afirmou em um comunicado Mnangagwa, conhecido como “crocodilo” e favorito para liderar a transição política.

Mnangagwa, de 75 anos, foi destituído em 6 de novembro, por iniciativa da primeira-dama, Grace Mugabe, com quem competia para suceder o presidente.

A expulsão deste homem leal ao regime, herói da luta pela “libertação” do Zimbábue, provocou a intervenção das Forças Armadas, que controlam o país desde 15 de novembro.

Desde o início da crise, as vozes pedindo a renúncia do decano dos chefes de Estado em atividade no planeta se multiplicaram: o exército, as ruas e seu próprio partido, o Zanu-PF.

Ao meio-dia desta terça-feira, por iniciativa do Zanu-PF, o Parlamento havia iniciado a sessão dedicada a examinar o pedido de destituição de Mugabe.

“Esta moção não tem precedentes na história do Zimbábue”, havia dito Jacob Mudenda aos membros das duas câmaras do Parlamento.

Em sua resolução, o Zanu-PF acusou o presidente de “ter autorizado sua esposa usurpar seus poderes” e “não ser mais capaz fisicamente de assegurar seu papel”.

Reunida em caráter de urgência, a direção do Zanu-PF já tinha destituído Mugabe de seu mandato na presidência do partido, e lhe deu um ultimato até a segunda-feira ao meio-dia para deixar a presidência do país, antes de lançar o processo de destituição.

O Zanu-PF obteve, assim, pela via legal, o que nem os manifestantes, nem o exército tinham conseguido até agora.

O presidente do Parlamento leu a carta de Mugabe assim que começaram os debates.
“Minha decisão de me demitir é voluntária. Está motivada pela minha preocupação com o bem-estar do povo zimbabuano e meu desenho de permitir uma transição, pacífica e não violenta, que garanta a segurança nacional, a paz e a estabilidade”, escreveu o presidente.

– ‘O caminho da saída’ –
O agora ex-presidente havia ignorado até então todos os apelos para que deixasse o poder, e inclusive afirmou no domingo à noite, em um discurso televisionado, que presidiria o congresso do partido em dezembro.

Os veteranos da guerra de independência, um dos pilares do regime, voltaram a fazer um apelo nesta terça ao presidente para que acordasse e se demitisse.
No sábado passado, milhares de pessoas foram às ruas de Harare e na segunda cidade do país, Bulawayo (sudoeste), aos gritos de “Bye bye Robert” e “Adeus, avô”.

– Quem substituirá Mugabe? –
É muito provável que o período de transição que começa seja dirigido pelo ex-vice-presidente Mnangagwa.

Como ele foi destituído, é em princípio o outro vice-presidente, Phelekezela Mphoko, próximo da primeira-dama excluído do Zanu-PF, que deveria assumir as rédeas, segundo a Constituição.

“Penso que Emmerson Mnangagwa será rapidamente empossado”, antecipou, no entanto, o analista Derek Matyszak, do instituto de estudos em segurança ISS, de Pretória.

“Pelo que sei, Mphoko não está no país. O governo deveria se reunir (…) e nomear um presidente ou um vice-presidente”, disse.